Histórico

C.I.M.B.R.A - CONFERÊNCIA DE INTERCÂMBIO MONÁSTICO DO BRASIL

 

Origem

A história da CIMBRA acha-se profundamente ligada à grande transformação que se operou na Igreja por ocasião, e mesmo por obra do Concílio Vaticano II. Hoje, já temos uma suficiente distância daquela época para justificar um esboço do julgamento sobre o Concílio. Este foi certamente, obra do Espírito Santo, conduzindo a Igreja na direção de uma profunda renovação. De um lado, uma verdadeira volta às fontes, e de outro, sem dúvida, uma tentativa de adaptação às exigências do mundo de hoje. Mesmo assim, como tudo que é humano, o Concílio apresentou altos e baixos. O balanço, porém, era muito favorável. O Concílio promoveu a visão da Igreja como povo de Deus, esquecendo o modelo clericalista. Um fato óbvio desta mudança foi a revalorização e promoção do leigo como membro atuante na comunidade cristã.. Mas, como tudo o que é humano, houve também um lado menos brilhante, e até negativo. A transformação teve um preço, e quem pagou foi a vida religiosa. Mas de proporções consideráveis, atingiram de cheio as ins tituições monásticas e de vida religiosa no que elas possuíam de mais fundamental. De uma hora para outra, os valores mais essenciais da vida religiosa foram contestados pelos próprios religiosos, sobretudo os mais jovens.. Havia até quem se perguntasse se a vida religiosa ainda era exeqüível, pelo menos quanto às formas clássicas, e se ela não seria, ao contrário, reduzida a formas mais recentes, talvez mais adaptadas à vida moderna ou mesmo identificadas com os caminhos do mundo.

No Congresso dos Abades de 1966, o primeiro depois do Concílio, os participantes chegaram a se perguntar, naturalmente nas conversas de bastidores, se nós os atuais abades e, portanto, os responsáveis pelos mosteiros, não seríamos porventura os coveiros do monaquismo no séc. XX. Como participante daquele encontro, lembro-me da angústia que causava a mim e a muitos a incerteza de um futuro sombrio. Como reagir e salvar a venerável instituição monástica que, apesar de tudo, nós amávamos e víamos como útil e até necessária à caminhada da Igreja? Foi nesse contexto que surgiu a CIMBRA.

Paradoxalmente,começara mais ou menos nessa época uma espécie de implantação monástica nos paises chamados do Terceiro Mundo: África, Ásia e América Latina. Eram pequenas as fundações, porém surpreendentemente numerosas. Procediam de diferentes mosteiros e por isso não possuíam em comum uma estrutura jurídica que as ligasse umas às outras. Sentia-se, nas diferentes regiões, a necessidade de encontros a fim de por em comum planos e preocupações, trocar idéias sobre as reformas e adaptações que pareciam necessárias a uma simples sobrevivência. Pouco antes, surgira na França uma associação destinada a promover e ajudar a instalação monástica nos países da África e da Ásia. O seu criador e primeiro presidente foi o Abade Robert de Floris, ex-Abade do mosteiro de En-Calcat da Província Francesa da Congregação de Subiaco. Dom De Floris fundou a A.I. M., iniciais da Aide à Implantatio Monastique, hoje Aide Inter Monastères. Ele teve como primeira secretária da organização, Madre Pia Valeri, da Congregação d as beneditinas da Rainha dos Apóstolos, ligadas à Congregação da Anunciação (antiga congregação Belga). Ambos, mais tarde resignatários, merecem a maior gratidão da parte de todos que compreenderam o papel das novas fundações beneditinas, naquele tempo de angústia e de tantas incertezas quanto ao futuro.

A A.I.M. foi reconhecida pela Ordem Beneditina (as três Confederações: Beneditina, Cisterciense e Trapista) e estabelecida oficialmente como Secretariado, sob a supervisão da Confederação Beneditina. Sucessor de Dom Robert de Floris, como Presidente da A.I.M., Dom Bernard de Soos, também monge de En-Calcat, apadrinhou e ajudou sobremaneira todas as associações do tipo da CIMBRA que então se formaram, inclusive a nossa.

Voltemos ao Congresso dos Abades, de setembro de 1966, o primeiro logo após o término do Concílio, de grande importância para a constituição da CIMBRA. È de se notar que estes Congressos, que se realizavam de seis em seis anos, haviam sido interrompidos por causa da grande reunião do Concílio Ecumênico Vaticano II, que absorvia, evidentemente, todas as atenções. E mesmo porque alguns abades eram membros do Concílio, outros trabalhavam nas comissões de apoio. Resolveu-se por isso interromper a série de Congressos de Abades, para retomá-los após o Concílio.

Era a primeira vez que eu comparecia a uma reunião dessas. Elas realmente nos oferecem uma visão excepcional da Ordem como conjunto e da universalidade da nossa missão na Igreja de Cristo. Havia, entretanto, aquela preocupação séria sobre o nosso futuro. Será que teríamos mesmo futuro? A impressão de transtorno, de revolução, com o respectivo quebra-quebra, era tamanha e o futuro tão confuso e imprevisível, que ficávamos intensamente preocupados.

Algum tempo antes, alguns superiores e monges de fundações da África, secundados ou mesmo inspirados pela A.I.M., já se haviam reunido no mosteiro beneditino de Bouaké, na Costa do Marfim. Ali trataram dos problemas comuns: implantação de mosteiros na terra africana e questões levantadas pela necessidade de adaptação a um meio tão diferente do europeu. A reunião de Bouaké repercutiu em todo o mundo beneditino. Alguns abades e monges do Brasil e também da Argentina e Chile, que começaram a constituir o CONO- SUR integrando mais tarde o Uruguai e Paraguai, começaram a pensar na possibilidade e na conveniência de uma reunião dessas para nosso continente latino-americano. Entre os mosteiros do Cono-Sur, não parecia haver grande problema. Seus mosteiros eram todos fundações novas (com exceção talvez de Santa Escolástica, mosteiro de monjas situado na Província de Buenos Aires e então pertencente à Congregação Beneditina do Brasil). Os demais pertenciam cada um a uma congregação diferente e almejavam unir- se numa nova, que foi então denominada Congregação do Cono-Sur.

No Brasil foi diferente. Alguns dos mosteiros eram muito antigos, tinham longa tradição. Surgiu logo uma forte contestação, dividindo abades e monges em duas tendências: uma favorável à formação da associação e achando que se deveria ir à frente, embora também receassem as dificuldades e mesmo alguns resultados negativos; outra que se debatia entre o receio de contribuir para a decadência da vida monástica, devido à influência de novidades capazes de provocar um clima de novidadismo. Apesar de tudo isso, persistia entre nós o desejo de nos encontrarmos como irmãos, para debatermos juntos nossos problemas e anseios comuns. Os mosteiros do norte, Bahia e Olinda, com os quais se achavam unidas, por sentimentos comuns, várias fundações recentes de outras congregações, como os de Curitiba (hoje Goiás), Vinhedo e Mineiros, aspiravam realizar algo de novo que reanimasse a chama da vocação monástica naqueles tempos turbulentos. Os mosteiros do sul, Rio e São Paulo, unidos aos de São Geraldo e Ribeirão Preto, se mostravam mais reticentes, viam com bastante desconfiança esta nova iniciativa, talvez com tendências subversivas quanto à boa ordem e tradição da Vida Beneditina.

Entre as monjas, a maioria se inclinava para o caminho mais conservador, mas algumas, como as de Olinda, Belo Horizonte, Ribeirão Preto (este, das beneditinas de Tutzing), sentiam-se mais ligadas à mentalidade de renovação.

No Congresso de 1966, ao qual nos referimos acima, a tensão chegara a ser tão forte, ao ponto temermos uma ruptura que, aliás, ninguém desejava.

Chegou-se felizmente a um acordo. Estabeleceu-se uma comissão, composta de representantes dos dois grupos, para programar os passos seguintes a serem dados com grande prudência e chegar-se a um equilíbrio. Os mais liberais queriam que se formasse logo uma Conferência de Intercâmbio Monástico do Brasil: (daí a sigla CIMBRA). Mas por exigência dos mais temerosos, optou-se por ser apenas uma Comissão e não Conferência.

Evolução:

Somente mais tarde, na reunião da CIMBRA de 1977, é que foi constatado o fato de terem passado completamente os receios iniciais e, especialmente, as dúvidas de até então, quanto à possibilidade de a CIMBRA interferir na autonomia dos mosteiros. Chegou-se à conclusão de serem improcedentes os temores sobre a adoção do termo Conferência, verificando-se, por outro lado, a total impropriedade da palavra Comissão. Aceitou-se assim, definitivamente, o título de CONFERÊNCIA DE INTERCÂMBIO MONÁSTICO DO BRASIL para a CIMBRA que a esta altura já era fato consumado. Isso porque, os anos decorridos entre a reunião de 1967 e a de 1977, foram para a CIMBRA de intensa atividade.

Ainda no Congresso de 67, começara a se esboçar a formação de um terceiro grupo da América Latina, inspirado no modelo da CIMBRA, e que teve por principal líder o prior e depois Abade do Mosteiro de Tepeyac, no México, um dos mais notáveis trabalhadores pela implantação dos mosteiros beneditinos naquele país, na América Central e Caribe: Dom Plácido Reitmeier, americano de origem e mexicano de coração. Com as mesmas características da CIMBRA e do CONO-SUR, surgiu então a ABECA, Associação Beneditina do Caribe. Dela, Dom Reitmeier foi várias vezes o Presidente. Os três grupos se entenderam logo muito bem, ABECA, CIMBRA e CONO-SUR, passando a promover reuniões compostas de representantes das instituições e fundações monásticas da América Latina.

Poderia ainda ter havido um quarto grupo, constituído pelos mosteiros do Peru, Equador e Venezuela, porém eles preferiram aderir, como de fato o fizeram, à ABECA. Assim toda a América Latina beneditina passou a possuir órgãos apropriados para a realização de seus encontros periódicos de beneditinos. O espírito geral desses encontros e reuniões era de caráter informal, não coincidente com a estrutura canônica dos mosteiros.. O que se buscava era a possibilidade de um debate franco, sem conseqüências canônicas imediatas, de modo a permitir que as idéias novas e as contestações da ordem vigente não tomassem logo um caráter de decisão definitiva, como seria o caso de um Capítulo geral ou de uma reunião dos superiores. O que constituía novidade era ver-se, na mesma reunião, superiores, monges, jovens professos e até noviços debaterem problemas dos mosteiros e da atualidade, sem constrangimento e em ambiente sempre muito cordial. Passado esse tempo mais heróico, chegou-se, pelo menos na CIMBRA, a distingu ir porprudência, as reuniões de monges já formados, das de jovens monges – professos trienais e noviços.

Passou-se a fazer dois tipos de reuniões, uma a cada ano. Nos tempos iniciais,.tornara-se necessário e mesmo urgente um entendimento entre as pessoas de diferentes gerações.

As várias faixas etárias apresentavam nos mosteiros problemas não pequenos,.devido às mudanças pelas quais passava a sociedade humana, em virtude do domínio da civilização tecnológica, da luta entre capitalismo e comunismo, e de tantos outros conflitos relativos ao comportamento humano Levantavam-se questões inimagináveis, sendo necessário chegar a um pensamento comum em face da vida monástica para esse tempo.Afirmavam-se diversas tendências, em meio a muita insegurança.

Em tais perspectivas parecia justo perguntar como um documento igual à Regra de São Bento, com 1.400 anos de História, poderia ser ainda uma norma aplicável às comunidades do séc. XX. Com o tempo tornou-se evidente, e sobretudo durante as pesquisas e trabalhos que se realizaram em torno do centenário da morte de São Bento, em 1980, que esse valor não havia de modo nenhum se afundado no cataclismo geral, mas que, ao contrário, possuía uma grande função e missão nos nossos dias. Foi tarefa da CIMBRA e das Associações análogas, com o grande apoio da AIM, sustentar o debate, apontar ou esboçar as novas linhas da caminhada monástica. A situação evoluiu no sentido de uma valorização muito grande, tanto fora, na sociedade em geral, como dentro dos mosteiros, da instituição monástica e particularmente da Regra e do espírito de São Bento como uma das normas mais positivas e de valor perene para a humanidade.