Dom Abade Ernesto Linka, OSB (R.I.P.) - (12/12/25, Kemenespálfa, Hungria - 04/10/17, São Paulo, Brasil)

22221570 1142017462594855 1625535016326650369 n"Sorriu" ... para a Eternidade !

Sim, nesta noite do dia 04/10, nosso Dom Abade Ernesto "sorriu" para a Eternidade e celebrou a sua Páscoa, será sepultado hoje na Cripta da Igreja São do Bento do Morumbi, da Abadia São Geraldo, em São Paulo, Brasil, aonde, junto ao coro celeste dos nossos antepassados na Fé, aguardará a Ressurreição dos Mortos.

O último de nossos monges húngaros terminou o seu exílio e retornou à Jerusalém Celeste.

A melhor maneira que encontrei de "re-cordar" ("guardar no coração") a sua Memória foi a de rever esta Homilia que originalmente proferi no dia 12 de dezembro de 2015, em nossa Abadia de São Geraldo, por ocasião de seus 90 anos.

Pelo dom de sua vida terrena e esperança de sua vida eterna, dou graças ao Senhor !

"Apuci" ... até a Ressurreição !

Com amor,

Dom Geraldo González y lima, OSB
Badia Primaziale Sant'Anselmo
Roma, Itália

"Ação de Graças pelos 90 anos de D. Abade Ernesto Linka, OSB

Querido Dom Abade Ernesto,

Na presença de tantas pessoas que lhes são caras e em nome de D. Prior Francisco e de toda a nossa Comunidade, eu me dirijo ao Sr. tentando usar as suas próprias palavras para falar de si mesmo .

Para iniciar, como chave de leitura, recorro a um versículo do Salmo 89 que tanto o marcou em outros dois momentos de sua vida, mais especificamente, o marcou nos seus “setenta” e nos seus “oitenta”, diz :

“A setenta anos vai a duração de nossa vida, fato notável quando chega aos oitenta !”

E o Sr. já chega aos “noventa” !

Mas como se desenvolveu a História de Salvação que Deus realiza no Sr. e através do Sr. ?

Ela começou aos 12 de dezembro de 1925 numa fazenda em Kemenespálfa, na zona rural de sua amada Hungria. Esse ambiente campestre com sua simplicidade e ricas tradições o marcou por toda a vida, tanto que uma das suas primeiras auto-definições foi, em bom português, “sou caipira” !

Seu crescimento e formação escolares deu-se em um dos nossos Colégios Beneditinos na Hungria e ao término do seu ciclo escolar, sentindo-se chamado à vida religiosa, o ingresso na Arquiabadia de Pannonhalma foi um passo natural.

Formou-se como monge e foi ordenado sacerdote num período muito difícil da história da Hungria e de toda a Humanidade, pois o Sr. testemunhou as consequências da Primeira Guerra Mundial, o fim do Império Austro-Húngaro, o Crash da Bolsa de Nova York, vivenciou a ascensão do nacional-socialismo, a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a invasão nazista e mais tarde a soviética, mas mesmo no perigoso período da Guerra Fria a sua alegria e simplicidade continuaram inabaláveis no serviço como Pároco e pastor no âmbito rural que o circundava e também como Professor de Religião. Foi o seu período de “Padre da roça”.

Quase vinte anos se passaram desde a sua Ordenação Sacerdotal quando ele, com o seu espírito aventureiro, tomou a decisão de deixar a sua querida Hungria e a sua Mãe ainda viva, e partiu para o Brasil para servir no jovem Mosteiro São Geraldo que por aqui havia se formado. Uma complicada viagem através da Áustria e da Itália finalmente trouxeram-no ao Brasil. Estamos no ano de 1967.

Inicialmente, no Brasil, seguindo a sua experiência na Hungria, ele dedicou-se à Colônia Húngara e também ao serviço pastoral na Igreja Santo Estevão Rei de Vila Anastácio. Mais tarde também veio a ser o segundo Pároco na Igreja São Bento do Morumbi. Contudo, sempre atento às necessidades da Comunidade, embora ainda enfrentasse as dificuldades do novo idioma, ele começou a estudar Pedagogia e foi muito popular como Orientador Educacional e como Professor de Religião entre os alunos do Colégio Santo Américo, conquistando-os quer pelo seu sorriso, quer pela sua natural simpatia, quer pela sua humildade. Foi o seu serviço como “Padre Professor”.

Em 1981, pouco após a celebração dos 1500 anos do nascimento de Nosso Pai São Bento, houve uma nova surpresa de Deus em sua vida pois, inesperadamente, o Sr. foi eleito Prior Conventual (Superior) de nossa complexa e pequena Comunidade Monástica húngaro-brasileira. Foi-lhe um choque, e o Sr. mesmo o dizia : “como numa Comunidade com tantas lideranças e capacidades intelectuais escolheram justamente o mais burrinho” ?

E esse “burrinho de Deus” foi nosso Superior por 24 anos ...

O seu período como Prior Conventual, de 1981 a até 1989, incialmente, foi-lhe muito duro pois ele não se sentia preparado para o novo serviço fraterno a que era chamado e a sua insegurança o fazia sofrer muito. Ao mesmo tempo, os desafios comunitários como o envelhecimento e falecimento dos monges húngaros e a instabilidade vocacional dos jovens brasileiros levou-o a enfrentar a entrega e/ou fechamento de várias obras que até então eram mantidas pela nossa Comunidade, como no caso dos Seminários menores em Nova Santa Rosa e em São Paulo e o das Paróquias Santa Rosa de Lima, no Paraná, e Santo Estevão Rei em Vila Anastácio.

Simultaneamente, o seu amor pelos mais pobres levou-o a desenvolver as nossas Obras Sociais, particularmente em Paraisópolis; a fidelidade às suas origens ajudou-o a estreitar os laços com a Hungria e com a Arquiabadia de Pannonhalma finalmente livres do comunismo; a sua preocupação com os leigos direcionou-o a participar ativamente na formação dos Oblatos e a sua abertura para o meio monástico brasileiro e latino-americano posicionou-o como um dos pilares da CIMBRA – Conferência Inter-Monástica do Brasil e da UMLA – União Monástica Latino-Americana.

Dada a sua simpatia, quando lhe perguntavam qual era a sua nacionalidade, ele simplesmente respondia “sou um baiano importado”.

Apesar de todas as nossas dificuldades humanas e estruturais, o Sr. concentrou-se em construir a nossa Comunidade, fomentando a nossa identidade monástica, reestruturando a nossa liturgia, fortalecendo a nossa formação, criando as bases para a nossa ereção em Abadia em 1989 e pavimentando o caminho para a futura fundação da Cela São José em Itapecerica da Serra.

Em 1989 houve uma nova surpresa de Deus e o Sr. foi eleito o nosso primeiro Abade . Esse novo serviço fraterno o consumiu por bem dezesseis anos ...

Nesse período, após a fundação da Cela São José em 1992, não foi fácil manter o equilíbrio e a presença entre as duas Comunidades, mas o número de vocações começou a aumentar lentamente dando-nos uma esperança para o futuro e apesar das várias crises e dificuldades em nossas obras elas não somente foram mantidas como passaram por um período de expansão, particularmente no Colégio e nas Obras Sociais.

Com grande alegria o Sr. ainda celebrou os Cinqüenta anos de fundação tanto do Colégio Santo Américo, em 2001, e Cinquenta anos da fundação d Abadia São Geraldo, em 2003.

Contudo, o peso da idade se fazia sentir e em maio de 2005, o Sr. decidiu renunciar ao Abaciato. Mesmo assim, aos 80 anos, o Sr. ainda teve de enfrentar um difícil ano de transição como Reitor no Colégio Santo Américo e por fim pode retirar-se em 2006 a uma vida mais tranqüila e condizente com a sua avançada idade.

De 2006 para cá, uma nova palavra, desta vez húngara, tem definido discretamente a sua vida : “Apuci”, “paizinho” !

Por fim, hoje, aqui estamos reunidos para agradecer o dom da vida, a vocação monástica e o Sacerdócio daquele foi um “caipira”, um “padre da roça”, um “padre professor”, “um burrinho de Deus”, um “baiano importado” e um “apuci” para esta Comunidade.

De coração, muito obrigado Dom Abade Ernesto !

Comecei com o trecho de um Salmo e termino com outro retirado do Salmo 71 :

“Agora também, na velhice e com os meus cabelos brancos, não me desampares, ó Deus, até que eu tenha anunciado a tua força a esta geração, e o teu poder a todos os vindouros”.

Que assim seja !

Dom Geraldo González y Lima, OSB
Abadia São Geraldo - São Paulo, Brasil